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Na onda do boom imobiliário

Veja Rio, Sofia Cerqueira, 02/abr

Mercado imobiliário em efervescência faz explodir a busca por profissionais ligados à construção civil. Em dois anos, a demanda cresceu 400%

FLAVIA ELIAS, 26 anos, corretora de imóveis

Formada em farmácia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), ela ganhava 1 800 reais trabalhando em uma drogaria. Há seis meses decidiu vender imóveis. Com as comissões, passou a receber em média 16.000 reais por mês. Já planeja comprar o próprio apartamento.
 
O horizonte não dava sinais da bonança que se aproximava. Era início de 2000 quando Renato Vasco decidiu fazer engenharia civil na Universidade Gama Filho. Naquela época, apenas cerca de vinte dos oitenta alunos que entravam no curso ali se formavam e só 25% deles saíam empregados. Mesmo sem perspectivas concretas, Vasco foi em frente. Não se arrepende. Estagiou na construtora Rossi, foi da Gafisa e, em abril de 2007, com proposta de três empresas, optou pelo grupo Cyrela/RJZ, ganhando 4.500 reais. Em um ano, passou de coordenador a gerente sênior de incorporação da Living, área da construtora que atua no segmento de baixa renda. Seu novo cargo lhe dá um salário três vezes maior. A carreira do engenheiro, de 28 anos, coincide com a fase em que o setor da construção civil no Rio de Janeiro entrou em franca recuperação. "Hoje, 100% dos formandos se empregam na área", afirma Maria Smith, coordenadora de engenharia civil da Gama Filho. Na UFRJ, o curso está em alta. "Há oito anos eram 3,5 candidatos por vaga. Agora é quase o dobro", destaca Ericksson Almendra, diretor da Escola Politécnica. São os reflexos do boom imobiliário, que começou a se esboçar em 2005 com uma junção de fatores: estabilidade econômica, queda dos juros e abundância de crédito - até 2003, o maior financiamento era de dez anos; hoje, pode chegar a trinta.
 
RENATO VASCO, 28 anos, engenheiro civil

No início de 2007 recebeu três propostas de grandes construtoras. Em um ano na Cyrela/RJZ, foi promovido de coordenador a gerente sênior da Living, área do grupo que atua no segmento de baixa renda. Já tem um salário três vezes maior do que o inicial.
 
Há dois anos, várias construtoras abriram capital na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e atraíram investimentos de 20 bilhões de reais. A fartura em caixa impulsionou empreendimentos e alavancou a carreira de profissionais ligados à construção civil, de pedreiros a corretores de imóveis, passando por maquetistas e organizadores de eventos. Os números confirmam a pujança no setor, em que ascensões-relâmpago, como a de Renato Vasco, são cada vez mais comuns. Em 2007, foram lançados 88 empreendimentos no Rio - um a cada quatro dias -, o que resultou em 13 025 novos apartamentos, 67,5% a mais do que em 2006. "As empresas estão crescendo e quem se empenha e demonstra potencial pode subir rápido", atesta o engenheiro da Cyrela/RJZ, que fez MBA em gestão empresarial na Fundação Getulio Vargas (FGV). Como gerente da Living, que investe na Zona Norte e na Baixada Fluminense, Vasco acompanha desde a busca por terrenos até o lançamento dos imóveis. Sua função é definir o perfil do empreendimento. "O mercado estava adormecido e há um hiato de vinte anos na formação de pessoal", constata André Bocater Szeneszi, diretor-geral da Case Consulting, empresa de recrutamento de executivos. "Os salários estão inflacionados, os profissionais valorizados e disputados com propostas agressivas", reforça Leonardo de Souza, gerente da área de construção no Rio da consultoria em recursos humanos Michael Page. Existe carência de pedreiros, mestres-de-obras, arquitetos e, sobretudo, engenheiros experientes na área de incorporação. De acordo com o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), em 2007 a demanda por esses profissionais fez com que 13 230 vagas fossem abertas na cidade, um aumento de 400% em relação a 2005. Em outras palavras, surgem 36 ofertas de emprego por dia.

MARCOS SACEANU, 31 anos, engenheiro civil

Entrou na CHL em 2003 para cuidar da parte de incorporação. Na época, o setor se resumia a ele. Hoje comanda uma equipe de trinta pessoas e ocupa o cargo de diretor. Seu salário, que era o piso da categoria, foi multiplicado por dez, sem contar os bônus.

O mercado imobiliário sofreu uma reviravolta. Levantamento de Veja Rio feito com cinco grandes construtoras da cidade mostra que seus quadros de pessoal (incluindo contratados e prestadores de serviços) cresceram 177% em três anos. Saltaram de 5 687 contratados para 15 781. E falta gente. Com a escassez de profissionais, as empresas acenam com salários mais altos. Segundo as consultorias Michael Page e Case Consulting, a remuneração dos profissionais da construção civil subiu, em média, 30%. Mas há aumentos bem maiores. Um engenheiro de obras iniciante, que ganhava cerca de 3 500 reais, recebe agora entre 5 000 e 6 000 reais. Os benefícios não são exclusivos de quem saiu da faculdade. "Só neste ano recebi três propostas", comemora o mestre-de-obras Edvaldo Andrade, 56, que trabalhou 22 anos na Servenco e está há sete na Brascan. Com o passe disputado, ele, que estudou até a 4ª série do ensino fundamental e há dois anos recebia 3 000 reais, teve o contracheque reajustado para 5 300 reais.
 
BRUNO JACOBSOHN, 34 anos, arquiteto

Há dez anos abriu a Domus, empresa de computação gráfica especializada em criar perspectivas para o mercado imobiliário. Só no ano passado fez 2 300 imagens para o setor. Começou numa sala de 40 metros quadrados e atualmente ocupa quatro coberturas num centro comercial da Barra.

"Como o mercado andou de lado ou para trás durante muito tempo, vários profissionais migraram de setor", frisa Rogério Chor, presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi) e da CHL. Há cinco anos, sua construtora alcançou um volume geral de vendas de 100 milhões de reais. Em 2007, ele foi 260% maior. Quem apostou na área saiu ganhando. O engenheiro civil Marcos Saceanu, de 31 anos, é um exemplo. Em 2003, entrou na CHL para cuidar da parte de incorporação. O setor se resumia a ele. "Hoje tenho uma equipe de trinta pessoas", diz. O salário também inflou. Ele foi contratado com o piso de engenheiro (atualmente, 3 527 reais) e, em cinco anos, teve o salário multiplicado por dez.
 
MARCELO LARRAT, 39 anos, promotor de eventos

No início de 2007 sua empresa organizava em média três coquetéis por mês na área imobiliária. Hoje são dez. Há três anos tinha cinco funcionários. Agora são trinta.

Profissionais tarimbados como Saceanu são preciosidade no setor. Além de investirem em talentos internos, as empresas recrutam estagiários, buscam desempregados e apostam em trainees e em estratégias para manter suas estrelas. "Com o mercado aquecido e a concorrência acirrada, estamos investindo pesado em programas internos", diz Rogério Jonas Zylbersztajn, vice-presidente da Cyrela/RJZ, que tem 26 empreendimentos em construção no Rio. No momento, a construtora emprega 46 trainees - com um custo anual de 100 000 reais cada um, entre salários de 3 500 reais, encargos, benefícios, cursos e viagens para conhecer obras da empresa em outros estados. A Gafisa também investe na formação de pessoal. "Dos cargos de gerência, 60% são ocupados por ex-estagiários", contabiliza o diretor Luiz Carlos Siciliano. "Temos grupos de treinamento nas obras e no escritório", diz Marco Adnet, diretor regional da Rossi. Para segurar quem está no ponto, aumentam os benefícios oferecidos. A Brascan custeia cursos de pós-graduação e de língua estrangeira e paga 75% da mensalidade de funcionários que fazem faculdade. Como várias concorrentes, a construtora tem um programa de bônus. Dependendo da empresa, isso representa seis, oito, dez salários extras. Também são praxe as stock options, plano que permite aos funcionários comprar ações da firma a preços abaixo dos de mercado e vendê-las tempos depois. "Poucas áreas têm condições tão favoráveis", afirma o administrador Gabriel Fidalgo, de 26 anos. Ele entrou na Carmo e Calçada como gerente de incorporação ganhando 5 000 reais. Em sete meses, recebeu duas propostas e teve um aumento salarial de 80%. A partir de abril, fará um MBA de marketing pago pela empresa.
 
JÚLIO PESSOLANI, 51 anos, maquetista

Só está aceitando encomendas feitas com três meses de antecedência. Há três anos, as solicitações eram atendidas de imediato. Desde janeiro, fez quinze maquetes e se viu obrigado a recusar outros dezesseis pedidos.

A prosperidade respinga em profissionais como maquetistas, arquitetos, corretores e promotores de eventos. No mercado há dez anos, a Domus, empresa de computação gráfica especializada em perspectivas, plantas humanizadas e tours virtuais, viu suas encomendas aumentar 50% no último ano. Em 2007, criou 2 300 imagens para a área imobiliária - cada uma sai entre 2 000 e 10 000 reais. Até março, já tinha mais 1 500 encomendadas. O número de funcionários cresce sem parar. Há dois anos eram vinte. Agora são setenta. "Não pegamos encomendas com menos de três meses de antecedência", diz um dos sócios, o arquiteto Bruno Jacobsohn, de 34 anos. "Várias empresas estão fazendo contratos anuais para garantir o atendimento", conta o maquetista Júlio Pessolani, de 51 anos, que só aceita encomendas a partir de junho. De janeiro a março, sua equipe fez quinze maquetes (custam de 10 000 a 100 000 reais) e recusou outros dezesseis pedidos.
 
RENATO MOURA, 45 anos, corretor de luxo

Depois de vinte anos trabalhando com publicidade, começou a vender imóveis de alto padrão na orla da Zona Sul. Em onze meses, comercializou dez apartamentos na faixa de

1 milhão a 6 milhões de reais. Está ganhando entre 20 000 e 30 000 reais por mês.

Os corretores vivem o clima de festa, com direito a brindes de champanhe nos estandes. As 13 025 unidades lançadas em 2007 alcançaram 3 bilhões de reais. A previsão é que o valor seja superado em 1 bilhão de reais neste ano. Com comissões entre 1% e 3% sobre o valor da venda, não faltam novatos no setor. "Muitos advogados, economistas e administradores estão vendendo imóveis", comenta Rubem Vasconcelos, à frente da Patrimóvel, que tem 1 000 corretores. Entre eles Flavia Elias, de 26 anos, uma farmacêutica que há seis meses decidiu tentar a sorte na área. Recebia 1 800 reais trabalhando em uma farmácia. Hoje ganha em média 16 000 reais por mês. "Já penso em trocar o carro e comprar um apartamento." No ano passado, 2 600 pessoas requisitaram o registro do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci), o dobro de 2006. "Com apenas uma venda, tiro mais do que ganhava em três meses", afirma o publicitário Renato Moura, de 45 anos, líder de vendas na Ximenes, imobiliária que atua no segmento de alto padrão. Em onze meses, vendeu dez imóveis avaliados entre 1 milhão e 6 milhões de reais. Por mês, ganhou entre 20 000 e 30 000 reais.

Empresas que organizam lançamentos e enchem os estandes de mimos, como canapés de caviar, shows e vôos de balão, estão vibrando com a boa fase. "No início de 2007 fazia três eventos por mês na área. Agora são dez", compara Marcelo Larrat, 39 anos, sócio da Larrat Eventos Imobiliários, com trinta funcionários, seis vezes mais do que três anos atrás. "Não acho que a palavra boom defina o momento do setor", ressalta Rubem Vasconcelos. "Ela sinaliza fim. E nós estamos apenas no começo."


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