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Em busca do milagre dentro de casa
O Globo, Felipe Frisch, 24/mar
As quedas registradas na semana passada nos mercados mundiais de commodities matérias-primas que têm cotação internacional, como ouro, café, açúcar, soja e minério de ferro, deixaram os investidores da Bolsa brasileira em dúvida sobre o seu rumo. Eram justamente as altas cotações desses produtos que vinham segurando a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) distante das fortes quedas dos mercados internacionais. Isso porque elas concentram boa parte das negociações e do próprio Índice Bovespa (Ibovespa), que dá a média das variações diárias. Somente Vale (com produção de ferro, alumínio, cobre e níquel) e Petrobras (petróleo) representam mais de 31% do índice, que é mais de 40% composto por ações de empresas que se beneficiam das altas internacionais das matérias-primas. E sofrem com as perdas, como as que ocorreram na semana passada, de quase 10% em alguns casos.
Em 12 meses desde que a crise das hipotecas nos EUA começou a dar seus sinais no mercado financeiro , o setor de mineração ainda é o que acumula as maiores altas em toda a Bovespa. No ano, o setor já tem queda de 1,59% e quem ainda mostra algum fôlego é o setor de siderurgia e metalurgia, também beneficiado pela alta internacional do aço, outra commodity que vinha subindo com a demanda de grandes construções na China. Setor imobiliário pode sofrer com eventual alta de juros A estratégia para o investidor que quiser se proteger dessa volatilidade pode ser procurar ações de outros segmentos, especialmente ligados ao consumo interno e menos expostos à crise internacional dizem os especialistas. É o caso das empresas de geração e transmissão de energia elétrica, que, por pagarem bons dividendos (distribuição de lucro), são consideradas ações "defensivas". Ou seja, garantem parte da rentabilidade via proventos, e, até por isso, oscilam menos do que o Ibovespa, destaca Marco Melo, chefe de pesquisa da corretora Ágora.
Estatisticamente, os setores de varejo e de energia tendem a ter um comportamento mais defensivo, menos correlacionados com o Ibovespa diz, dando destaque para o setor de comércio eletrônico. De fato, enquanto o Ibovespa sobe 34,58% em 12 meses, o setor de energia elétrica sobe 36,08%. No ano, o índice cai 7,92% e as ações do setor, em média, perdem 4,36%. Marco Melo lembra que mesmo o setor siderúrgico está menos dependente das exportações do que já esteve, especialmente para aços planos (CSN e Usiminas). Hoje, segundo Melo, o segmento vende de 20% a 30% para o exterior, mas a fatia já chegou a 40% quando o dólar estava mais valorizado, favorecendo as exportações. O analista Fernando Fanchin, da gestora de recursos Rio Bravo, destaca ainda empresas do setor de bebidas como boas distribuidoras de dividendos. A Petrobras tem receita atrelada ao petróleo, e a Vale, ao minério, que podem variar muito de um ano para outro. Por isso, as ações sofrem diz.
Como setores ligados à economia doméstica, ele destaca ainda o de bens de consumo e da construção civil, que tendem a ser menos voláteis no cenário atual, diz. No entanto, as incertezas internacionais podem influenciar o rumo das taxas de juros no país, prejudicando esses segmentos. Hoje, a taxa básica de juros, a Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), está em 11,25% ao ano. Mas, na última reunião, o comitê deu sinais de que poderá elevá-la nos próximos meses, se as pressões inflacionárias se mantiverem. Além disso, o desempenho dos setores de bens de consumo, como o de eletoeletrônicos, vai depender do alcance das medidas que devem ser anunciadas pelo governo para inibir a demanda e conter pressões sobre a inflação. O foco maior das medidas tende a ser a indústria de automóveis. O gerente de análise da Modal Asset Management, Eduardo Roche, acredita que, com a queda de 5,01% do Ibovespa na quarta-feira devido às baixas de preços das matérias-primas, ficou difícil apontar algum setor protegido da crise.
Teoricamente, o setor interno pode ter uma proteção maior. Até que se prove que as commodities vão ter um revés mais forte, as ações desses setores vão continuar se destacando diz. Para André Segadilha, gerente de análise da Prosper Corretora, quem quiser pensar em rentabilidade no mercado de ações deve olhar para o longo prazo. A economia real está indo bem no Brasil. Cada vez mais, apostamos em setores internos, como o de construção, o automobilístico e o de energia.
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