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Saneamento é o desafio

Jornal do Commercio, 20/mar

O diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), José Machado, não tem dúvidas de que o maior desafio da proteção dos mananciais de recursos hídricos no Brasil é elevar a cobertura de saneamento básico. Para o Dia Mundial da Água, que se comemora neste sábado, o especialista chama atenção que em todo o País, somente 20% dos municípios fazem coleta de esgoto e o índice de tratamento gira em torno de 20% com eficiência discutível. Isso significa que todos os dejetos domésticos não tratados, ou com baixo índice de descontaminação, vão parar nos rios, córregos e outros mananciais de onde é retirada a água que abastece a população. A demanda cresce no mesmo ritmo em que se configura a escassez, agravada pelo avanço da degradação ambiental.

"O Brasil tem uma legislação moderna, mas muito recente. A Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída em 1997 (pela Lei 9433) só tem dez anos e a criação da ANA, principal órgão gestor, é de 2000. Apesar dessa modernidade no que se refere à criação de ferramentas de gestão, temos um passivo ambiental de décadas, que se agravou principalmente nos últimos 40 ou 50 anos, com os avanços dos processos de urbanização, de crescimento da fronteira agrícola e de industrialização. Reverter essa realidade depende de altos investimentos em programas de despoluição que são ações de longo prazo", observou Machado.

O diretor-presidente da ANA enfatizou que a Agência tem atuado junto à sociedade no sentido de fortalecer a implementação do Sistema Nacional de Recursos Hídricos, com avanços observados em relação à participação dos estados da Federação nesse processo e à formação de comitês de bacias (já são 140 em todo o País), onde se reúnem representações de todos os segmentos sociais para definir ações prioritárias de gestão compartilhada da água. Isso inclui, entre outras iniciativas, a cobrança pelo uso da água, como ocorreu em caráter pioneiro na Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, onde os recursos financeiros arrecadados estão custeando projetos de recuperação ambiental.

Para o engenheiro Carlos Lemos Costa, o uso racional da água depende da adoção de tecnologias que já estão disponíveis no mercado e da atitude de todos os cidadãos. "Somos perdulários em relação ao consumo de água no Brasil. Achamos que a oferta não tem limites. No caso dos prédios comerciais, a maioria tem vasos sanitários que consomem de 12 a 15 litros por descarga quando já existem no mercado bacias sanitárias com descargas de seis litros. A simples mudança já reduziria pela metade ou mais esse consumo desnecessário", orienta o especialista em projetos de uso racional.

Além da troca de descargas, outra ação que pode ter resultado imediato no consumo de água, segundo o engenheiro, é a utilização de torneiras com mecanismos de contenção nos prédios comerciais e residenciais. "Essas são medidas que podem reduzir pela metade um consumo diário que hoje pode estar acima de 30 litros por pessoa". Em casa, acrescenta o engenheiro, o grande vilão é o chuveiro que, no Brasil, é utilizado uma ou duas vezes por dia, por cada morador. "Consumindo 20 a 25 litros de água por banho representa, em cerca de dez minutos, um gasto de 200 a 300 litros, considerado um absurdo. Com utilização de restritores no chuveiro é possível reduzir esse gasto para 14 litros por minuto, o que pode gerar uma economia considerável", reforça.

O engenheiro também chamou a atenção para o aumento dos níveis de degradação dos mananciais, onde a cada dia crescem ações como o despejo de lixo e de esgoto sem tratamento, além do desmatamento das margens que deveriam proteger rios, córregos e outros corpos d'água. Costa ressaltou que é preciso desfazer junto à sociedade, o equívoco da abundância. Isso porque a maior oferta de água do Brasil (cerca de 70%) está na Amazônia, onde vivem 4% da população, enquanto em regiões como o Sudeste, que concentra mais de 60% dos habitantes do País, a disponibilidade hídrica é de pouco mais de 12%. "A captação dos grandes centros é feita em distâncias cada vez maiores e a custos mais elevados. Para isso é fundamental a adoção de consumo responsável que se traduz em uso de tecnologias adequadas e atitude de cada cidadão", conclui o engenheiro.


 


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