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Expansão do metrô esbarra na falta de reassentamento

Jornal do Brasil, Renato Grandelle, 13/mar

A extensão do metrô a Ipanema já avançou 800 metros terra abaixo, mas ainda não driblou o seu maior desafio. O Estado não cumpriu a promessa de conseguir, até o fim de janeiro, novos terrenos para 70 famílias que serão desapropriadas do Morro do Cantagalo por causa do programa de contenção de encostas. Em dezembro, o governo considerava que, se o prazo não fosse cumprido, a inauguração da Estação General Osório poderia atrasar.

O Palácio Guanabara admite que a falta de espaços livres dentro da favela contribuiu para o atraso no remanejamento dos moradores. A comunidade empenha-se em encontrar um endereço alternativo, ainda que apenas para o período das obras. Uma das opções seria uma escola abandonada no Arpoador, mas as autoridades definem a transferência das famílias para o asfalto como "pouco factível".

Faltam moradias

De acordo com a Secretaria de Obras, 54 casas devem ser retiradas da área de risco para dar lugar a instalações físicas do metrô, próximo à Rua Teixeira de Melo, em Ipanema. Mas um levantamento feito pela Associação de Moradores do Cantagalo mostra que o morro não tem mais de 20 propriedades vagas. O Estado ainda não sabe como compensar o déficit de moradias. Não há espaço para os reassentados mesmo no conjunto habitacional que será construído no topo da favela. O local atenderá apenas famílias desapropriadas pelo alargamento de vias previsto no Programa de Aceleração de Crescimento (PAC).

- Não contamos, para o alto da morro, com a realocação de famílias cujas casas estão envolvidas com as obras do metrô - admite Vicente Loureiro, subsecretário de Urbanismo da Secretaria de Obras. - A estrutura geológica da rocha do Cantagalo é muito complicada, o que encarece demais a contenção de encostas e a fundação de estacas.

Construir no alto do morro têm saído mais caro do que o previsto pelo Estado. Em média, a preparação de um terreno consome até 15% da verba prevista para um empreendimento. No Cantagalo, o solo não favorável já faz o governo ultrapassar esta margem de gastos.

Imóveis na Zona Sul

Para evitar problemas com o solo do morro, a Secretaria de Obras não descarta mudanças estratégicas em seus projetos. Em vez de concentrar os moradores em pequenos prédios, a pasta investiria na construção de sobrados, que exigem menor aparato das empreiteiras.

Outra solução foi apresentada pela própria comunidade. Em ofício mandado à Secretaria de Transportes, o presidente da associação de moradores do morro, Luiz Bezerra do Nascimento, sugeriu dois imóveis abandonados da Zona Sul. Um deles seria o posto do INSS na Rua Raimundo Corrêa, em Copacabana. O Jornal do Brasil visitou o prédio ontem e constatou que, ao contrário do que diz a associação, o espaço está ocupado.

O outro local sugerido por Bezerra é o antigo Colégio Isa Prates, na Rua Francisco Otaviano, no Arpoador. Em janeiro, a prefeitura anunciou a compra do imóvel, que será transformado em uma escola da rede do município. A Secretaria de Educação, no entanto, não trabalha com prazos. Enquanto as obras ainda não têm data para começar, o estabelecimento serve de abrigo noturno para sem-tetos como o índio pataxó Sancler Towara.

Tem para todos

Sancler caminha entre dentaduras e livros em francês, jogados no chão quase todo coberto da escola, enquanto anuncia que o prédio tem espaço para todos.

- Já dormi três vezes aqui - conta. - Se os índios que estão em outras ocupações soubessem desta escola, viria todo mundo para cá. Dava até pra abrir um escritório. Mas a escola tem espaço suficiente para nós e os moradores do Cantagalo.

O colégio serviria como lar provisório para cerca de 50 famílias, enquanto o Estado não arrumasse uma solução definitiva para elas dentro da comunidade. Outras 20 famílias estariam dispostas a aceitar indenizações.


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